Terapia costuma ser associada a técnicas e diagnósticos. Mas muitas das perguntas que levam alguém ao consultório são, no fundo, perguntas filosóficas: quem eu sou, o que faz sentido, como escolher. Neste texto, a psicóloga Amanda Stroparo, doutora em Filosofia, conta como essas duas áreas se encontram na clínica.
Quando alguém começa terapia, raramente chega dizendo “quero pensar sobre o sentido da vida”. Chega com algo concreto: ansiedade, cansaço, uma decisão difícil, uma relação que não vai bem. Mas, com o tempo, é comum que essas questões concretas revelem perguntas maiores. Por que isso importa tanto para mim? O que eu realmente quero? Quem eu sou quando não estou cumprindo expectativas?
Essas são perguntas que a Filosofia faz há séculos. E é por isso que ela pode ser uma aliada da terapia.
Primeiro, um esclarecimento: trazer a Filosofia para a clínica não significa transformar a sessão numa aula nem citar autores para explicar a vida de ninguém. A terapia continua sendo sobre você, a sua história e o que você sente.
A Filosofia entra de outra forma: como uma maneira de escutar e de perguntar. Ela ajuda a não aceitar respostas prontas, a olhar para uma situação por ângulos diferentes e a levar a sério as questões de sentido que aparecem no meio do sofrimento.
Uma das abordagens que mais dialogam com a Filosofia é a Psicologia Existencial. Inspirada em filósofos que pensaram a liberdade, a responsabilidade e a finitude, ela parte da ideia de que parte do sofrimento humano vem de questões que todos enfrentamos, cedo ou tarde.
O psiquiatra Irvin Yalom, um dos principais nomes dessa abordagem, descreveu quatro grandes preocupações existenciais: a morte, a liberdade, o isolamento e a falta de sentido. Elas não aparecem na sessão com esses nomes. Aparecem como o medo de desperdiçar a vida, a angústia diante de uma escolha, a solidão mesmo cercada de pessoas ou a sensação de que o trabalho perdeu o propósito.
Outra contribuição da Filosofia é o senso crítico. Muitas das crenças que nos fazem sofrer parecem verdades absolutas: “preciso ser produtiva o tempo todo”, “se eu errar, não tenho valor”, “a essa altura eu já deveria ter tudo resolvido”.
Na terapia, essas frases podem ser examinadas com cuidado. De onde vêm? Quem as disse primeiro? Elas fazem sentido para a vida que eu quero viver? Esse questionamento não é frio nem distante. Ele é feito com acolhimento, respeitando o tempo de cada pessoa, e muitas vezes é o que abre espaço para novas escolhas.
Pode parecer que tudo isso é muito teórico. Na prática, é o contrário. Refletir sobre o que dá sentido à própria vida costuma trazer mudanças bem concretas: uma conversa que finalmente acontece, um limite que passa a ser colocado, uma escolha de carreira feita com mais clareza.
A proposta é que a reflexão não fique só no consultório, mas acompanhe você no dia a dia.
A formação da Amanda reúne a Psicologia, com especialização em Psicologia Analítica e experiência com Terapia dos Esquemas e Psicologia Existencial, e a Filosofia, com mestrado e doutorado na área. Essa combinação aparece na forma de conduzir a terapia: uma escuta empática, que acolhe o sofrimento, e ao mesmo tempo um convite para pensar, com profundidade, sobre as perguntas que ele traz.
Se você sente que as suas questões pedem mais do que respostas rápidas, talvez seja esse o tipo de conversa que você está procurando.