Você entrega, é reconhecida, recebe elogios. Mesmo assim, uma parte sua desconfia: “foi sorte”, “logo vão perceber”. Essa experiência tem nome, é mais comum do que parece e costuma estar ligada à ansiedade e ao esgotamento. Entenda o que é o chamado fenômeno do impostor e por que ele não se resolve com mais conquistas.
Uma promoção chega e, em vez de alívio, vem o medo de não estar à altura. Um elogio no trabalho soa como um engano que logo vai ser desfeito. Um diploma na parede parece pertencer a outra pessoa.
Para quem vive isso, cada conquista parece confirmar a sensação de fraude em vez de afastá-la.
Em 1978, as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram o que chamaram de fenômeno do impostor: a experiência de pessoas bem-sucedidas que, apesar das evidências concretas de competência, acreditam não merecer o lugar que ocupam e temem ser “descobertas”.
Não se trata de um diagnóstico clínico, mas de um padrão de pensamento e emoção que pode ser muito intenso e persistente.
Uma revisão sistemática publicada em 2020 no Journal of General Internal Medicine reuniu 62 estudos com mais de 14 mil participantes. A frequência do fenômeno variou muito, de 9% a 82%, conforme o instrumento e o grupo estudado. Os autores também encontraram uma associação frequente com depressão e ansiedade, além de relação com menor satisfação no trabalho e burnout.
Ou seja, a sensação de fraude não é só um desconforto pontual. Ela pode afetar a saúde emocional e a forma como alguém vive a própria carreira.
A resposta intuitiva seria: “basta provar para mim mesma que sou capaz”. O problema é que, no fenômeno do impostor, as provas não convencem. O sucesso é atribuído a fatores externos, como sorte, ajuda dos outros ou um erro de avaliação de quem elogiou. Já os erros são vistos como a prova definitiva de incompetência.
Com isso, forma-se um ciclo: preparação excessiva ou procrastinação ansiosa, alívio momentâneo quando dá certo e, logo depois, a mesma dúvida na próxima tarefa. Cada conquista exige ainda mais esforço para ser “garantida”, e o cansaço se acumula.
Não existe uma causa única, mas algumas experiências costumam aparecer na história de quem vive essa sensação:
Entender essa história não serve para encontrar culpados, mas para perceber que a sensação de fraude tem raízes, e que raízes podem ser olhadas com cuidado.
Na terapia, o objetivo não é convencer ninguém de que “você é incrível”. Frases de incentivo raramente funcionam para quem se sente uma fraude. O trabalho é outro: investigar os padrões que sustentam essa sensação, as crenças sobre o próprio valor e as emoções que aparecem quando o reconhecimento chega.
Aos poucos, é possível construir uma relação mais honesta com as próprias conquistas, em que elas podem ser reconhecidas sem medo de que desapareçam no dia seguinte.
Se você se reconheceu neste texto, talvez valha conversar sobre isso com alguém que possa escutar essa história com atenção.